Mesmo sem o nome nas urnas, três ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) têm pautado os debates das eleições de 2026. Investigações e ações judiciais conduzidas por Flávio Dino, André Mendonça e Alexandre de Moraes ganharam protagonismo nas campanhas e vêm influenciando o humor dos eleitores, captado pelas pesquisas de intenção de voto. Em uma eleição disputada voto a voto, cada movimento pendular a um dos lados, mesmo que mínimo, importa.
Chama a atenção que as principais decisões que vêm afetando as campanhas estão menos na arena da Justiça Eleitoral e mais no Supremo. Enquanto no STF há movimentações com impactos diretos nas campanhas, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob o comando de Nunes Marques, tem encontrado dificuldade em definir de forma ágil temas essenciais no pleito de 2026, como a caracterização de deepfakes e o uso de recursos audiovisuais em pesquisas eleitorais.
Movimento diferente de 2022, quando o TSE, sob o comando de Moraes, foi um tribunal mais intervencionista nas eleições, principalmente diante das fake news. No STF, os principais desgastes políticos ocorreram em inquéritos conduzidos também por Moraes relacionados a ataques ao sistema eleitoral e desinformação. Ações contra decisões do governo Jair Bolsonaro, como a PEC Kamikaze e a redução do ICMS nos combustíveis – medidas consideradas importantes para a reeleição – foram finalizadas após as eleições.
Os inquéritos envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e o financiamento do filme Dark Horse, sobre a vida do ex-presidente Bolsonaro, viraram os calcanhares de Aquiles das campanhas – as duas investigações afetam diretamente os dois principais postulantes à Presidência: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
As investigações dos dois casos estão divididas em inquéritos conduzidos por Mendonça e Dino, o primeiro indicado ao cargo por Jair, pai de Flávio; e o segundo, indicado por Lula. Nas campanhas, a interpretação é que esses ministros têm privilegiado os grupos políticos que os indicaram.
Impacto nas campanhas
Nesta semana, a campanha petista comemorou a decisão de Dino de permitir o compartilhamento de provas da Polícia Civil de São Paulo com a Polícia Federal na investigação sobre o suposto uso de emendas parlamentares para o financiamento de Dark Horse. A leitura é que a determinação dá um respiro nos vazamentos do caso Lulinha, que tomaram o debate eleitoral.
Há expectativa, do lado petista, que as provas possam abrir novos caminhos de investigação nas mãos de Dino e também pressionar Mendonça sobre a investigação que ele comanda. Na avaliação de petistas, o “terrivelmente evangélico” não tem dado o mesmo ritmo ao inquérito do Dark Horse e de Lulinha.
Do lado de Flávio, a campanha aposta nas investigações contra Lulinha por suposto tráfico de influência para desidratar Lula. Nas últimas semanas, o candidato do PL melhorou os índices de intenção de voto, em um período que coincidiu com o arrefecimento do caso Dark Horse no noticiário, tomado pelos vazamentos.
Paralelamente a isso, Alexandre de Moraes comanda a execução de Jair Bolsonaro, um importante ator eleitoral, mesmo que preso por tentativa de golpe de Estado. Moraes tem interferido diretamente na agenda do ex-presidente, proibindo visitas – como a do presidente da Argentina, o direitista Javier Milei, e do próprio Flávio. Moraes também se posicionou contrário ao uso de vídeo feito por inteligência artificial de Bolsonaro, alegando que se trata de deepfake – se antecipando ao juízo do próprio TSE sobre o tema.
Recentemente também coube a Moraes o papel de intermediar uma reaproximação entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), afastados desde a rejeição de Jorge Messias à vaga de Roberto Barroso no STF, o que alimentou entre opositores de Lula a ideia de que Moraes está do lado do petista.
Além da disputa pelo Planalto
Mas o poder de influência desses ministros não se restringe à campanha presidencial. Mendonça tem em mãos os inquéritos do INSS e do Master, que já colocaram sob alvo da Polícia Federal três senadores candidatos à reeleição: Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA) e Weverton Rocha (PDT-MA).
Dino, por sua vez, conduz a ação sobre emendas parlamentares e as investigações sobre o uso irregular desse recurso público. No último domingo (23/8), ele determinou que Câmara e Senado devem considerar nulas eventuais emendas indicadas por presidentes de partidos sem mandato no Congresso e ex-parlamentares.
As medidas foram tomadas após o próprio ministro determinar a suspensão de emendas suspeitas e o bloqueio de recursos do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (Republicanos-MG). Os dois ex-deputados são alvos de apuração da PF sobre a indicação de emendas mesmo sem mandato parlamentar. A determinação pode diminuir o poder dos dois no jogo político.
Não há dúvidas no mundo político de que as investigações e ações no Supremo estão mexendo com o tabuleiro eleitoral. As campanhas enxergam movimentos intencionais dos ministros e vão tentar calibrar as decisões a seu favor e diminuir estragos.
Nos bastidores, ministros rejeitam a ideia de serem instrumentalizados pelas campanhas, argumentam que as investigações seguem o seu curso e as movimentações são normais. Ainda, argumentam que, por conta do período eleitoral, o que seria corriqueiro toma dimensão eleitoreira.
No entanto, o timing das operações, as investigações sobrepostas e os vazamentos deixam a suspeita no mundo político de orquestração dos ministros do STF, reforçados pelo cenário de desalinhamento entre os próprios magistrados e conflitos internos na PF.
A verdade é que, enquanto as investigações contaminam as campanhas, as discussões de propostas acabam ficando em segundo plano.
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